AUTORITARISMO DE GÊNERO: FASCISMO, EUGENIA E A NOVA MISOGINIA DIGITAL
Por Sassá Tupinambá*
Raízes históricas do controle sobre o corpo das mulheres
Ao longo da história moderna, projetos autoritários de organização social sempre buscaram controlar o corpo, a sexualidade e o papel social das mulheres. Esse controle não surgiu de forma isolada, mas foi sustentado por um conjunto de ideias que se articulavam entre si: eugenia, higienismo, racismo científico e concepções patriarcais de família. Esses discursos foram particularmente fortes no final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, período em que intelectuais e dirigentes políticos tentavam justificar hierarquias sociais e raciais por meio de argumentos pseudocientíficos.
No Brasil, figuras como Raimundo Nina Rodrigues contribuíram para a difusão do chamado racismo científico, que buscava estabelecer hierarquias biológicas entre grupos humanos. Nesse mesmo ambiente intelectual, a mulher passou a ser tratada como elemento central de um projeto de engenharia social. A maternidade era entendida como instrumento de reprodução da “raça” e da ordem moral da sociedade.
Essas concepções ganharam força também em movimentos políticos autoritários. No integralismo brasileiro, liderado por Plínio Salgado, a mulher era apresentada como guardiã da família e responsável pela formação moral da nação. A sua função social deveria permanecer ligada à maternidade, ao lar e à disciplina doméstica. A participação feminina em espaços públicos e políticos era frequentemente vista como ameaça à ordem social.
Eugenia, higienismo e a construção da misoginia institucional
O discurso eugenista, aliado ao higienismo, buscava legitimar intervenções sobre os corpos e comportamentos considerados “desviantes”. Mulheres pobres, negras e indígenas eram frequentemente tratadas como problema social ou biológico, enquanto o ideal feminino era associado à branquitude, à docilidade e à submissão.
Nesse contexto, a misoginia não era apenas uma atitude individual, mas um componente estruturante de políticas e instituições. O controle sobre a sexualidade feminina, a vigilância sobre os comportamentos considerados “imorais” e a imposição de papéis rígidos de gênero funcionavam como mecanismos de manutenção de uma ordem social hierarquizada.
O fascismo europeu e suas influências no Brasil reforçaram essa lógica. Regimes autoritários transformaram a maternidade em dever patriótico e reduziram o papel da mulher à reprodução biológica e moral da nação. A ideia de que a emancipação feminina representaria uma crise moral ou uma ameaça à sociedade tornou-se parte de um repertório ideológico que atravessou décadas.
A nova misoginia digital e o movimento red pill
No século XXI, parte dessas ideias reaparece em novos formatos e linguagens. Nas redes digitais, comunidades associadas ao chamado movimento red pill difundem narrativas que apresentam as mulheres como responsáveis por transformações sociais que teriam prejudicado os homens.
Esses espaços frequentemente promovem uma visão simplificada e biologizante das relações de gênero. A desigualdade entre homens e mulheres é apresentada como consequência natural da biologia, enquanto a autonomia feminina é retratada como fator de desordem social. Trata-se de um discurso que resgata elementos antigos da tradição misógina, mas agora amplificado pela velocidade e pelo alcance das plataformas digitais.
Embora nem todos os participantes dessas comunidades defendam explicitamente a violência, o ambiente discursivo tende a normalizar a hostilidade contra mulheres. Piadas, memes e narrativas de ressentimento constroem um imaginário em que a desumanização feminina se torna socialmente aceitável.
O silêncio social e a normalização da violência
A história demonstra que nenhuma forma de violência coletiva se estabelece sem algum grau de tolerância social. Quando discursos misóginos são tratados como mera provocação ou como opinião legítima, cria-se um ambiente cultural em que a violência deixa de ser percebida como ruptura ética e passa a ser vista como reação compreensível.
No Brasil, esse processo ocorre em paralelo a índices elevados de violência de gênero. O feminicídio representa a expressão extrema de uma cadeia de agressões que frequentemente começa com humilhações, controle psicológico e ameaças. A normalização de discursos de ódio contra mulheres contribui para legitimar essas práticas e para enfraquecer a reação coletiva diante delas.
O silêncio social diante da misoginia cotidiana acaba funcionando como mecanismo de legitimação indireta da violência. Quando a sociedade se cala diante da desumanização de um grupo, abre espaço para que essa desumanização avance.
Educação como estratégia de prevenção
Diante desse cenário, a resposta não pode se limitar ao campo penal. Embora a legislação seja fundamental para responsabilizar agressores, ela não é suficiente para interromper o ciclo de reprodução da violência.
A educação desempenha papel central nesse processo. Ambientes escolares são espaços privilegiados para o desenvolvimento de pensamento crítico, para a discussão sobre direitos humanos e para a construção de relações sociais baseadas no respeito e na igualdade. Ignorar o debate sobre gênero nas escolas significa abrir mão de uma das principais ferramentas de prevenção da violência.
Projetos pedagógicos que abordem história, cidadania e diversidade permitem que jovens compreendam como ideologias autoritárias foram construídas e como continuam se manifestando em novas formas. Esse processo educativo é essencial para romper a naturalização da misoginia e para fortalecer valores democráticos.
Sem iniciativas educativas consistentes, o avanço de discursos que desumanizam as mulheres tende a produzir consequências sociais cada vez mais graves. O aumento da hostilidade, da violência sexual e do feminicídio não é resultado inevitável da natureza humana, mas da forma como sociedades escolhem enfrentar ou ignorar determinadas ideologias.